quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Brotas de Macaúbas quer resgatar sua história

Por Thaís Barreto  

Enquanto se discute a eficiência da Comissão da Verdade proposta pelo governo, a cidade de Brotas de Macaúbas, na Bahia, torna-se pioneira na exumação da história sobre seus mártires. A celebração dos 40 anos da morte de Carlos Lamarca e do seu companheiro Zequinha Barreto mobilizou a população local, cidades vizinhas e contou com a presença de autoridades do cenário político brasileiro.

O evento acontece há pouco mais de 10 anos por iniciativa de Dom Luiz Flávio Cappio. Ganhou força a partir de 2009 com a participação de políticos que iniciaram uma mobilização pela mudança sócio-cultural, transformando o dia 17 de setembro em feriado municipal. Desde então, as atividades giraram em torno de reconstituir os fatos, busca de novos depoimentos. Um convite àqueles que, por medo, jamais puderam falar do que testemunharam.

A iniciativa propõe não só o resgate, mas uma mudança no tratamento dos que lutaram contra a ditadura militar no Brasil. O secretario estadual de Cultura da Bahia, Antonio Albino Canelas Rubim, destacou que Brotas de Macaúbas, tendo acesso a outra versão da história, está estabelecendo um processo de mudança cultural, ao incluir uma nova denominação a Zequinha e Lamarca, que antes eram chamados de terroristas.
Para muitos ainda são, mas o objetivo principal é simplesmente esclarecer à população de onde veio o terror. Nilmário Miranda, ministro dos Direitos Humanos durante o governo Lula, contou como foi quando esteve frente a frente com o delegado Sérgio Paranhos Fleury, um dos mais temidos torturadores. Destacou-se nos trabalhos do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) em São Paulo chegando à chefia do “Esquadrão da Morte”.

O Dops tinha a função de reprimir quaisquer manifestações populares e utilizava-se da tortura para arrancar informações que levassem a outros participantes. “Você sabe quem eu sou? (fazia a mesma pergunta a vários presos) fui eu quem matou o Bacuri (Eduardo Leite), fui eu quem matou o (Carlos) Marighella. Se você não contar, vai conhecer a sucursal do inferno”, relatou Nilmário.

Os militares, com a liderança do major Nilton Cerqueira e a participação do delegado Fleury, enviaram tropas para realização da Operação Pajussara. Chegaram ao povoado de Buriti Cristalino no dia 28 de agosto de 1971. Olderico Barreto, irmão de Zequinha, também compartilhou alguns de seus momentos de tortura, conheceu ali sua resistência para não abrir nenhuma informação. Perguntavam ininterruptamente onde estava o Lamarca.

O barulho dos helicópteros e a presença das metralhadoras ficaram na lembrança da população. A maioria tem medo até hoje. Quanto a Zequinha, não entendiam porque aquele rapaz de voz serena, que se juntava com amigos para tocar violão, acabou sendo caçado feito bicho.

O evento mobilizou alunos a escreverem redações. Muitos diziam nunca terem ouvido falar do assunto. Partiram para pesquisa e houve 300 inscritos no concurso de redação. Alunos do Ensino Fundamental e do Ensino Médio foram premiados. A iniciativa soma entre os instrumentos do convite ao interesse por mais detalhes da história.

A Pintada, município de Ipupiara, vizinho de Brotas, foi o local do assassinato de Lamarca e Zequinha no dia 17 de setembro de 1971. A área foi adquirida por uma cooperativa fundada por Olderico e doada para construção do Memorial dos Mártires. O trabalho foi iniciativa do bispo de Barra (BA), Luiz Flávio Cappio.
Dom Luiz utilizou recursos próprios para construção do Memorial. Ainda falta o acabamento e ele pediu publicamente ajuda dos políticos presentes durante o evento. A cada família das vítimas será requisitada a exumação dos corpos de Lamarca, Zequinha, Otoniel Barreto (irmão de Zequinha) e Luiz Antônio Santa Bárbara.

A Comissão da Verdade

Na composição do governo brasileiro existem várias pessoas que sabem exatamente como eram os chamados “anos de chumbo”. A Comissão da Verdade foi colocada em pauta, mas falta-lhe algum respaldo, pois representantes de associações de ex-presos e perseguidos políticos, de grupos de familiares de vítimas da ditadura militar  e outras entidades exigem modificações no texto que está para ser votado nesta quarta-feira (21).

Não há como ignorar o poder do conservadorismo. As contradições no processo de constituição da democracia pós-64 aparecem desde a Lei da Anistia. Quanto ao texto da Comissão, manifestantes questionam cláusulas as quais determinam que dados e informações apurados pela Comissão continuem com acesso restrito. Além disso, exigem que o relatório final apure violações e crimes cometidos. “É preciso da memória para se fazer justiça social”, disse Nilmário.

* Texto publicado no site da Revista Fórum 

Sertão baiano vira marco na luta pela revisão da Lei de Anistia ao homenagear Lamarca e Zequinha Barreto

Por Pedro Caribé e Thaís Barreto

Nos caminhos dos morros secos da Chapada Diamantina, na Bahia, a ditadura militar também deixou suas marcas de terror. Foi lá que no dia 17 de setembro de 1971, o Exército brasileiro encerrou a perseguição ao capitão Carlos Lamarca, ao seu parceiro Zequinha Barreto e ao professor Luiz Antônio Santa Bárbara. Mesmo tendo ocorrido há 38 anos, as marcas desa chacina ainda permanecem na região. Até por isso, com o nome de Celebração dos Mártires, há 10 anos a história é recontada no dia 17 de setembro em evento organizado pelo bispo da diocese de Barra, Luiz Flávio Cappio que, na última edição, anunciou a construção de um santuário no local do assassinato, nas veredas do povoado de Pintada, onde uma cruz já está erguida.

Neste ano as comemorações contaram com a presença de representantes dos governos federal e estadual, em campanha pela revisão da Lei de Anistia. Entre outros, estiveram lá o ministro Franklin Martins, o assessor especial da presidência da República, Carlos Tibúrcio, três secretários estaduais, o deputado federal Emiliano José (PT-BA), autor do livro Lamarca, o Capitão da Guerrilha, e o ex-governador Waldir Pires. Dom Cappio e representantes do governo evitaram dividir o mesmo palco, por conta das divergências quanto à transposição das águas do rio São Francisco, que levaram o bispo a fazer greve de fome. Mas o ministro Franklin Martins diluiu as divergências ao declarar: “Nós podemos falar à luz do dia o que fizemos. Eles não podem vir aqui à praça e dizer o que fizeram. Eles têm vergonha.” 

A aparição e as declarações de Martins foram uma clara demonstração de que há força no governo federal a tese de rever a Lei de Anistia. “Zequinha e Lamarca não foram mortos só no dia 17 de setembro. Eles continuaram a ser mortos através do tempo. Não a morte física, mas a morte moral quando os acusavam de serem traidores, desertores, assassinos e terroristas. Os inimigos queriam assassiná-los moralmente para que o povo não reconhecesse o que eles eram. Mas aqueles que conviveram com eles sabem quem foram”, disse Martins, visivelmente emocionado. 

Participaram também daquela celebração o filho de Carlos Marighela, Dirceu Rodrigues, Ieda Chaves e Dulce Maia (ex-exilados da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) que foram trocados pelo embaixador alemão Von Holleben, sequestrado em 1970); o cineasta Edgard Navarro, autor do filme Porta de Fogo (1982), sobre os últimos dias de Lamarca; a mãe de Santa Bárbara, Dona Maria; os irmãos de Zequinha Barreto, Olderico e Divá; e membros do Instituto Zequinha Barreto de Osasco, região metropolitana de São Paulo.



*Texto publicado na Revista Fórum edição nº 79

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Nossa língua em “xeque”

Por Thaís Barreto

Um capricho de letrados sustentado por um documento cheio de contradições. É assim que alguns críticos definem o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. O professor Pasquale Cipro Neto chegou a assinar um artigo para a Folha de S. Paulo (Diário da reforma ortográfica – 16/4/2009) grifando que se tratava de uma petição contra o referido acordo. Eis que chegou a reforma ortográfica, e agora, o que faremos “nós mortais?”.

O fato é: o acordo é lei. Os oito países cujo idioma oficial é o português têm até 2012 para adaptação da escrita com a nova norma. Para o jornalista e escritor Hélio Pólvora, “o jeito é engolir o que uns poucos prescrevem e a maioria aceita docilmente”. Ele declara que “trata-se de um aborrecimento, um dispêndio inútil de dinheiro”.

Isto se comprova, pois já estamos na 5ª edição do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp). Pasquale chegou a recomendar, no programa Nossa Língua Portuguesa (TV Cultura), que as pessoas não comprassem nenhum livro para não perderem o dinheiro. Isto nesse contexto de incertezas.

A estudante de jornalismo Iranildes Costa, alega que mudanças como estas deveriam ser amplamente discutidas com a sociedade antes de entrarem em vigor. Ao tempo em que declara: já é uma tradição no Brasil que as mudanças sejam sempre impostas, de cima para baixo.

Iranildes aponta como positivo o fato de chamar atenção das pessoas para detalhes como o hífen e a acentuação gráfica. “Francamente, a maioria desconhecia a forma correta antes da reforma”. Ela ressalta que “a língua é feita pelos falantes, não adianta impor normas sem dar ao povo a oportunidade de conhecê-las”.

Toda essa polêmica, e no Brasil a alteração da grafia é de apenas 0,5%, nos demais países pode chegar até mais de 1%. A mídia tem demonstrado a fragilidade da própria Academia Brasileira de Letras com a situação do Volp. No caderno de Cultura do Jornal Zero Hora (16/05/2009), Cláudio Moreno, doutor em Letras e professor da Estácio de Sá (Rio), critica: “A Academia literalmente nos atropelou com a publicação do seu vocabulário ortográfico”.

Não bastasse tudo isso, circula na internet a “Petição Manifesto em Defesa da Língua Portuguesa”. É um abaixo assinado eletrônico com o objetivo de reunir 200 mil assinaturas. É liderado pelo deputado português Vasco Graça Moura. Ele aponta que o acordo serve a “interesses geopolíticos” e empresariais brasileiros.

Além de unificar a língua portuguesa, outro objetivo do Acordo é o intercâmbio cultural. Segundo Hélio, isto acontece mais no papel, nos discursos, que na realidade. Ele pondera “Outrora, Camilo Castelo Branco e Eça de Queiroz eram mais lidos e admirados no Brasil do que em Portugal. Acho que o mesmo aconteceu com Fernando Pessoa e acontece com José Saramago”.

Hélio Pólvora aponta como positivo a inserção das letras k, w e y, que por sinal jamais desapareceram do dia a dia. O Acordo contempla os países: Brasil, Portugal, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Timor Leste e Macau